Há histórias que vão ficando para trás aos poucos. Estão ali, escondidas em uma música, em um cheiro, em uma rua qualquer, numa lembrança que chega sem pedir licença. E talvez seja por isso que algumas despedidas demorem tanto para acontecer dentro de nós. Na vida, às vezes, o coração continua morando em lugares onde a vida já não mora mais. Nossa vida é assim, cheia de pedaços de histórias que nos constroem. Que fazem ser quem somos.
Em um determinando momento, quando falamos de amor falamos de saudade. É a música que toca a alma. É aquele frio na barriga que nunca soubemos explicar. É o lugar onde a paz e a ansiedade conseguem coexistir.
Até que, em algum momento a palavra muda....
Era!
O era, o foi... é que nos fazem perceber que as coisas mudaram, e talvez seja aí a gente perceba que certas histórias não acabam exatamente quando terminam. Elas acabam quando deixam de ser futuro... quando os caminhos se desencontram, quando as coisas não fazem mais sentido dentro de nós.
Alguns amores são a melhor aventura das nossas vidas. São a música que parecia ter sido escrita para uma determinada ocasião. São a dança que ninguém ensinou. Mas também são as piores dores que conseguimos suportar. O pior tormento e a maior prisão que já vivemos. Há encontros que chegam como o sol, mas também trazem muitas tempestades.
Alguns deixam janelas abertas, outros deixam cicatrizes. Há quem passe para nos mudar. E há quem, sem saber, nos devolva a nós mesmos. E há quem faça as duas coisas.
Talvez amar seja isso também... descobrir versões desconhecidas de quem somos. E podemos ser tudo. Podemos ser a pessoa que se entrega, a que espera, a que insiste, a que se perde, a que erra, a que tropeça, a que fere ou que é ferida... E ai somos a pessoa que aprende a soltar. E, depois de tudo, somos aquela que finalmente consegue se reconhecer outra vez.
Suponho que seja esse o segredo dos grandes amores.... eles não permanecerem intactos, mas deixam algo intacto dentro de nós. Talvez uma coragem que não tínhamos antes, uma memória, uma canção, uma maneira diferente de olhar para o mundo, uma força nova que surgiu e principalmente uma certeza daquilo que não queremos viver de novo...
...e de que em algum momento da vida, o coração esteve exatamente onde deveria estar.
Algumas histórias não foram feitas para durar. Foram feitas para nos atravessar. E, depois, quando a vida segue e os anos passam, entendemos que partes das coisas mais bonitas que já fomos pertencem ao tempo em que ainda éramos outra pessoa.
Tem amores que terminam, outros que permanecem. E há aqueles que mudam de tempo verbal. E tá tudo bem. 😊
Nem todo amor precisa durar para ter sido imenso. Nem toda história precisa continuar para ter sido verdadeira. Algumas pertencem a uma estação, a uma fase, a uma versão de nós que jamais voltará. Entender e aceitar isso, sem alimentar rancores, raivas, ódios... é algo simplesmente extraordinário. Aceitar que os ciclos se encerram... É libertador!
E há uma estranha beleza nisso. Porque o tempo não apaga tudo. Às vezes, apenas muda os lugares onde certas coisas vivem. O que um dia foi presença vira lembrança. O que foi dor, vira silêncio. E não há mais espaço no coração, mas sempre será marcado na nossa história.
Acho que é maduro demais entender isso, de forma serena... sem fúria, sem rancor. Sem precisar continuar buscando respostas, sem precisar perseguir o outro, sem atormentar ninguém.
Todo mundo já feriu alguém. Às vezes deliberadamente, às vezes por imaturidade, às vezes por egoísmo, às vezes porque não soube amar direito, às vezes simplesmente porque duas pessoas não são compatíveis. Isso faz parte da condição humana. Não somos perfeitos e não sejamos hipócritas.
E tudo bem, a dor explica muita coisa, mas não dá licença para ser transformada em crueldade. Podemos ter sido feridas e ainda assim escolher não ferir de volta. Podemos ter sido injustiçadas e ainda assim escolher não viver buscando reparação emocional através do sofrimento alheio.
...no fundo, pessoas feridas: ferem. Pessoas curadas: curam. Pessoas rancorosas, sofrem com os próprios pensamentos. E gente que perdoa, segue em paz.
Afinal, existe uma diferença enorme entre sentir uma mágoa e fazer da mágoa uma identidade. É normal ficarmos magoados quando a alguém nos fere, mas passar meses ou anos sofrendo com: "ai porque fulano me machucou" ...é querer passar a vida fazendo papel vítima.
Quando a gente não consegue superar, deixamos de estar apenas machucadas e passamos a alimentar a própria ferida. E superar não significa dizer que aquilo foi legal. Não significa voltar a falar ou fingir que não aconteceu. Às vezes superar é simplesmente:
“Ok, beleza... aquilo me feriu. Aprendi o que precisava aprender. Não quero mais viver nada parecido e vou cuidar da minha.”
No caso: sigamos nossas vidas, porra! Pronto!
CORTA PARA OS CRÉDITOS. 😂
FIM.
Carol Brunel